Fortaleza

“Essa casa é uma fortaleza”, foi o que a gente sempre disse. “O portão é pesado e a porta é grossa, ninguém vai conseguir entrar nela”.

Mas entraram.

Portão basculante, era pesado mas foi forçado facilmente a abrir. A porta grossa, foi chutada repetidamente até a madeira ceder. Ninguém em casa, e nada foi levado. Foi a pressa e o medo de um ladrãozinho drogado, provavelmente.

Mas quando notou-se, a casa tão segura estava aberta. Cadeados no portão não impediram uma segunda entrada. Um pé de cabra quebrou uma das barras do portão, e novamente a casa estava aberta. E dessa vez, a casa foi revirada, coisas foram roubadas. Nada de muito valor material, é verdade. O problema foi o gosto amargo de insegurança que ficou na boca depois.

E agora, o que fazer?

Decidimos pela mudança. Com o ocorrido, outros problemas que sempre ignoramos por gostarmos tanto da casa começaram à figurar nos nossos pensamentos. A casa é longe da faculdade e do trabalho. A boca de fumo a 3 quarteirões te faz repensar sobre a tranquilidade de chegar de madrugada em casa (a pé). E ficar sozinho em casa com a namorada seria bem mais tenso.

(a simples possibilidade de alguém entrar na casa enquanto ela está lá ainda me arrepia a espinha)

Essa até pode ser uma tragédia de “classe média”. Um problema que pode ser menor que o de outras pessoas, etc. Mas não dá pra deixar de se sentir inseguro, invadido.

Agora vamos pra um apartamento. Quarto andar, quatro blocos no prédio, porteiro 24 horas.

Esse apartamento é uma fortaleza.

Ninguém vai conseguir entrar nele.

Vida em Mono

Um tempo atrás eu participei de um projeto de um amigo meu, o Edu. Nesse projeto, chamado Storify, a gente escrevia contos para serem publicados no twitter, em até 12 tweets. Esse foi um dos meus contos, e o que eu mais gostei de escrever:

Vida em Mono

-Viveu a vida em mono. Embora na época, não soubesse o que signficava. Mas sem dúvida alguma viveu em mono.
-Não era criativo. Ignorava qualquer senso estético. Não sabia sequer combinar roupas. Por praticidade, apostava nas monocromáticas.
-Era míope de um olho só. Usaria um monóculo, mas não tinha dinheiro. Forçava o outro o olho e fingia enxergar bem.
-Não era bom em nada, jamais ganhara um jogo na vida. Empatara uma vez, jogando monopólio. Mas tinha roubado cenzinho do banco.
-Nunca foi ouvido de verdade. Jamais escutaram suas opiniões. Fez monólogos que ninguém ouvia, ou com os quais ninguém se importava.
-Lhe falavam em monossílabos, como se não se importassem.E não se importavam. Era só mais um cara de opiniões pequenas.
-Amou sempre a mesma mulher. Acreditava em monogamia. Mas ela fugiu com outro, que tinha dinheiro, sucesso, fama e uma ‘personalidade’ maior.
-Era uma vida monótona, fazer o que? Mas era a única que tinha, e ia ter que se virar com essa.
-Um dia tudo mudou. A mulher voltou, a vitória aconteceu, passaram a  ouvir e a responder. Ganhou na loteria. E comprou um estéreo.

A Batalha do Apocalipse

Capa da versão atual

O mundo vai acabar. As trombetas do Apocalipse estão soando, e aqueles mais atentos podem ouvi-las. Céu e Inferno fazem os últimos movimentos do grande jogo de xadrez travado desde o início dos tempos. Deus dorme, e há tiranos no Céu e no Inferno. Entre esses dois poderes, estão as almas de toda a humanidade, e o destino de um anjo renegado. E por mais que você pense que já viu isso, permita-me apresentá-lo a uma outra versão dessa história.

No livro ‘A Batalha do Apocalipse’ somos apresentados a Ablon, um general da casta de anjos guerreiros, os Querubins. A bem da verdade, Ablon FOI um general. Hoje é um renegado, vivendo na Terra a espera do Juízo Final, quando finalmente poderá voltar aos Céus e trazer justiça aqueles que o traíram. Antes do Apocalipse, Ablon se vê envolvido nos jogos políticos (e bélicos) finais das facções envolvidas nessa guerra, que também atinge uma das poucas amigas do general: Shamira, a Feiticeira de En-Dor.

Escrito pelo carioca Eduardo Spohr, A Batalha do Apocalipse impressiona por ser uma obra única na literatura nacional. Não há outro autor que trate do tema da maneira que Spohr faz, com anjos tão, por assim dizer, sentimentais. São personagens movidos por ódio, ciúme, compaixão e senso de justiça. E Ablon, mesmo sendo um celeste, é um dos mais humanos de todo o livro. Acompanhamos a trajetória do querubim não apenas nos momentos que anteceem o Juízo Final, mas também em flashbacks que remontam seus dias ainda nas fileiras celestiais, sua passagem pela mítica Babel e outros momentos de suas viagens pelo mundo. E assim vamos entendendo muito não apenas sobre o personagem principal, mas sobre todo o universo que o cerca.

Capa da versão da NerdBooks

O universo em que a história acontece, aliás, é um show à parte. A riqueza se mostra em pequenos detalhes deixados pela história, resultado tanto da pesquisa realizada pelo autor na literatura tradicional sobre o assunto (como em textos religiosos) quanto nas referências utilizadas de filmes e livros modernos. O próprio autor fala sobre as referências, e chega a citar filmes de kung-fu e desenhos animados japoneses. Parece estranho que uma história cheia de elementos clássicos inclua essas referências, mas tudo funciona muito bem junto, e o resultado é fantástico.

O livro foi originalmente lançado a partir de uma pequena tiragem, recebida como prêmio em um concurso cultural. Vendido na  Nerdstore, o livro foi um sucesso tão grande que uma nova edição foi lançada, pelo selo próprio da loja, o NerdBooks. O sucesso continuou e o livro está agora em livrarias de todo o Brasil, após ser republicado pela editora Record. O autor é um participante recorrente do podcast do site Jovem Nerd e autor do blog Filosofia Nerd. No hotsite do lançamento do livro, encontramos uma série de dramatizações de algumas passagens da história, feita por dubladores profissionais, que dão muito bem o tom da história e que valem a pena ouvir.

“A Batalha do Apocalipse” é um ótimo livro, praticamente obrigatório para os fãs de literatura fantástica. É muito bom ver um trabalho tão bem feito por um brasileiro, que em seu primeiro livro já pode ser comparado a autores consagrados, como Robert E. Howard (autor de Conan). Enfim, recomendadíssimo. Leia o livro agora, antes que o mundo acabe!

Livros Acumulados

Ler era um vício pra mim. Virou hábito, mas as coisas foram se enrolando, provas daqui, estudo dali, preguiça de cá, festa de lá e não deu outra. Leitura virou um costume tortuoso, trabalhoso e, dá até pra dizer, esquecido.
Comprar livros, por outro lado, era uma coisa secundária. Virou vício. Entrar em livrarias passou a ser um exercício de autocontrole, enquanto e-mails com promoções colocam minha conta bancária em risco permanente. E claro, quando a taxa de entrada é menor que a taxa de saída temos um ACÚMULO.
Atualmente existem na minha estante 27 livros ainda não lidos, ou não terminados. Fora mais dois que são emprestados.
A lista é a seguinte:

Ciência e a vontade de mudar o mundo

Sou aluno de engenharia, e trabalho com pesquisa como complementação. Esses dias eu estava em um congresso, sobre aplicações de nanotecnlogia em agricultura e tecnologia de alimentos. Esse tipo de congresso é sempre bacana pra trocar umas experiências e fazer contatos. Mas já na abertura eu ouvi um pessoal falando que me fez parar pra pensar um pouco.

Nada extremamente filosófico, pra ser sincero. Os que mais me chamaram a atenção (fora o inglês macarrônico e “Joel na Copa” dos representantes brasileiros) foram um discurso sobre a necessidade de um encontro como esse para a melhora da produção de alimentos no mundo (com direito àquele velho discurso sobre a produção não suprir a necessidade mundial) e outro sobre a ética e os riscos no desenvolvimento de novas tecnologias. Nenhuma novidade nesses papos, fato.

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Recomendo: Flogging Molly

Um tempo atrás, fuçando no computador de um amigo meu, encontrei uma música chamada ‘Drunken Lullabies’. Ri do nome da música (‘melodias bêbadas’) e coloquei pra tocar. Acabei descobrindo uma banda que logo se tornou uma das minhas favoritas.

Must it take a life for hateful eyes
To glisten once again
Cause we find ourselves in the same old mess
Singin’ drunken lullabies

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Um post Supremo.

Se você é fã de quadrinhos, já ouviu falar de Rob Liefeld e de Alan Moore. O primeiro, um desenhista que surgiu e se criou nos anos 90, é famoso por desenhar homens anabolizados, mulheres gostosíssimas e outros seres de anatomia duvidosa. Falar dos defeitos de Liefeld renderia um outro post. Já Alan Moore é uma lenda. Escreveu Watchmen, V de Vingança, Liga Extraordinária e tantas outras coisas. E como exatamente essas duas peças tão diferentes na visão dos fãs se juntam? Simples, SUPERMAN.

Não exatamente o kryptoniano, na verdade é na figura de um dos muitos genéricos do herói surgidos ao longo dos tempo. O SUPREMO surgiu em 92, como um tapa buraco na revista Youngblood, da Image Comics. Criado pelo Liefeld, era um personagem sem muita história, extremamente poderoso, badass e pronto pra descer a porrada em criminosos. Após uma grande lambança de roteiro, envolvendo versões de universos alternativos, do futuro e tudo o mais, Liefeld chamou Alan Moore para escrever a revista. E ele aceitou, com a condição de que pudesse apagar tudo que havia sido escrito. Continue lendo ‘Um post Supremo.’